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De Castanheira a Espinheiro
Grande Rota das Montanhas Mágicas – 9.ª etapa
Na “cozinha” do autocarro seguiam, como sempre, as intituladas B.kas – esse grupo de caminheiras que não conhece o significado de “silêncio matinal”. Enquanto alguns tentavam dormir, nós resolvíamos os problemas do mundo, falávamos de tudo e de nada e ríamos alto… muito alto. Resultado: ninguém dormiu. Missão cumprida.
O motorista não era o nosso habitual sr. Eduardo, mas revelou-se rápido e eficaz. Em pouco tempo já estávamos em Arouca para o pequeno-almoço-relâmpago (porque caminhar de barriga vazia também não é opção). Seguimos depois rumo a Castanheira, confiantes de que chegaríamos cedo às pedras-parideiras. Spoiler: não chegámos. Às 8.55h, quando achávamos que estava tudo controlado, surge um sentido proibido. E eis que o dia ganha emoção logo ali: primeira marcha-atrás do autocarro. A primeira de várias, porque encontrar uma estrada onde um autocarro pudesse passar parecia uma prova de orientação de nível avançado. Depois de algumas tentativas (e mais umas marchas-atrás dignas de exame de condução), lá chegámos à Casa das Pedras Parideiras, já passava das 10.15h.
Carimbo no passaporte (quase já não cabe mais nada – este passaporte vê poucas igrejas e muitas montanhas) e foto de grupo. Desta vez, nada de igreja: o cenário foi um pedregulho gigante cheio de pedrinhas-bebés, todos muito compostos para a fotografia oficial.
E lá fomos nós, pés ao caminho, com chuva morrinha, algum nevoeiro e pedrinhas nos bolsos (porque nunca se sabe quando uma pedra-parideira pode fazer efeito). Caminhos de pedra, trilhos de vacas – que nos observavam com ar desconfiado, como quem pensa: «Estes humanos perderam-se!» – até que damos de caras com… um precipício. Caminho? Zero. Só pedras, pedregulhos e o vazio.
Paragem geral para reflexão profunda. O bom senso gritava: «Isto não é caminho para gente decente.». Mas a Laura já descia, a nossa team leader foi espreitar e, claro!, as duas taurinas (a Marta e eu) trocaram aquele olhar silencioso que diz tudo: «Vamos, claro que vamos.» O João juntou-se, porque quatro ladies precisam de protecção contra os “animais selvagens” (que, felizmente, não apareceram). Conclusão: valeu tudo a pena. Paisagem brutal, daquelas que fazem esquecer o medo, as pedras soltas e o juízo.
O resto do grupo voltou para trás e acabou por fazer mais 4 km. Moral da história: às vezes, ser cauteloso dá mais trabalho. Afinal, não é só o autocarro que faz marcha-atrás… os caminheiros também.
A pausa da banana foi… alternativa. Os cinco “aventureiros do precipício” fizeram a pausa num coreto em Albergaria da Serra, enquanto o João consultava o mapa com ar sério de quem diz «Acho que estamos bem… acho.» Localizações partilhadas, seguimos caminho, passando pelo local onde nasceu o trail em Portugal, a Freita (por José Moutinho e Sálvio Nora) porque cultura também conta como quilómetros. Já perto do Merujal, chegámos ao parque de campismo cheios de esperança num restaurante… FECHADO (clássico). Salvou-nos um coberto com mesas de merendas molhadas, perfeitas para um piquenique estilo “quem está à chuva molha-se”. Almoçámos e esperámos pelo resto do grupo.
Barrigas compostas, seguimos viagem. Uns com 6 km sofridos, outros já com 10 km nas pernas. O objectivo era chegar a Moldes ainda de dia (ambicioso, mas bonito). Passámos por Chão de Espinho, Espinho e Adaúfe, até chegarmos a Espinheiro, com contas feitas: 17 km para uns, 21 km para outros.
Eis que o relógio marca 17h, os caminhos começam a parecer rios, e percebemos que a aventura já tinha sido suficiente para um dia só. Chamámos o autocarro (que chegou rápido e felizmente num sítio perfeito para… sim, outra marcha-atrás).
E então começou a melhor parte: comer, brindar e cantar às nossas aniversariantes, Lurdes e Laura, que nos adoçaram o dia (e a caminhada). Houve bolos, houve brindes e houve desafinação geral, como manda a tradição.
Depois da última paragem técnica (no WC, porque somos caminhantes, mas civilizados), regressámos às Sete Bicas. Uns dormiram, outros passaram pelas “brasas”, partilharam-se fotos e recontaram-se as peripécias… como se já não as tivéssemos vivido intensamente.
Baterias recarregadas, pernas cansadas e coração cheio. Agora é só esperar que as próximas duas semanas passem depressa para voltarmos a calçar as botas.
Obrigada a todos pela companhia, gargalhadas e boa-disposição. Um bem-haja… e que venha a próxima etapa (com menos marchas-atrás, se possível!) 😄🥾
Por Manuela Pedrosa, 25-04-2026
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